Comunidade
O advogado diz que Portugal é “um país merdoso”. Mas acredita que Sócrates está no bom caminho e que reabilitar a frente do Tejo será um desafio estimulante.
Apologista da criação de dois blocos, um à esquerda, outro à direita, José Miguel Júdice defende que a política, como o país, precisa de reformas urgentes. Deixou o PSD porque o ‘fato velho’, em que se sentia bem, ‘rasgou’. Em matéria política, diz não gostar de ementa única. Quanto ao resto, não tem um projecto de vida, “tenho projectos na vida”.
Está de regresso à política, depois de ter sido mandatário de António Costa?
Não. Tenho uma enorme experiência como mandatário… Creio mesmo que vou formar uma sociedade especializada! Já fui mandatário de Durão Barroso, Maria José Nogueira Pinto e de António Costa, candidatos de três partidos diferentes, o que me garante uma grande abrangência. Se ficar no ‘mercado’ não sei se no futuro não vou querer ser mandatário de um candidato do PCP ou do BE…
Se voltasse atrás e antecipasse as críticas que lhe foram dirigidas por aceitar ser mandatário de António Costa faria o mesmo?
Não só voltaria a fazer o mesmo como o faria mais depressa e aceitando com muito mais facilidade.
Estranhou as críticas?
Já não estranho nada em Portugal. Sei das estratégias de comunicação, das formas sofisticadas de destruir o carácter das pessoas para efeitos eleitorais. Observo o mundo político há muito tempo e não me surpreendo, embora se costume dizer que ‘fogo no rabo dos outros é gelo no nosso’…
Como foi o seu regresso às campanhas eleitorais?
Muito interessante. Nunca antes me tinham pedido tanta colaboração. Não me envolvia numa campanha há mais de 20 anos. Foi uma experiência de rejuvenescimento. A minha participação foi marginal, mas deu-me muito prazer. Foi sempre respeitado o meu estatuto de independente, que não é socialista, não quer aderir ao PS e não quer ter nenhuma carreira política depois disto. Como disse depois da campanha de Maria José Nogueira Pinto, espero também que António Costa tenha ganho 14 ou 15 votos mais por o ter apoiado…
As campanhas de hoje são diferentes?
Estive envolvido, enquanto presidente da distrital de Lisboa do PSD, nas autárquicas de 1985 e nas presidenciais de 86. Comparativamente, hoje há menos entusiasmo, militantismo, voluntariado, mobilização; e há mais televisão, estratégia de comunicação, ataques pessoais… É mais ‘científica’, mas tem menos graça.
Como são os socialistas por dentro?
Houve uma questão determinante para o meu apoio a António Costa. Foi o ter rompido com os maus vícios que se notavam sobretudo no PSD e no PS de Lisboa. A campanha foi muito personalizada, teve como base um pequeno grupo de pessoas que lhe são próximas, muitos independentes… O único momento que tive de contacto com o PS foi a grande ‘missa’ final, a sessão de encerramento, onde estavam 3500 pessoas, e em que foi muito agradável ver aplaudir de pé a referência que fiz aos ataques pessoais de que Sá Carneiro tinha sido vítima e que bem conheci, pois era advogado dele.
Sem maioria absoluta, a Câmara de Lisboa é ingovernável? Que deve fazer António Costa?
Mesmo a nível nacional, o país não é ingovernável por não haver um governo sem maioria. Há quem diga que o melhor governo de Cavaco Silva foi o minoritário, em 1985. As grandes decisões que vão ser tomadas em Lisboa dificilmente se evitará que não haja um grande consenso. Sendo o novo presidente um homem sensato, capaz de dialogar, diria que não vai ser difícil.
Está, ou não, a fazer caminho uma mentalidade e um discurso anti-partidos? Há espaço para um partido mais populista?
Nem as civilizações são imortais quanto mais os partidos. Se não forem capazes de encontrar soluções para os problemas que enfrentam podem entrar numa crise definitiva. O sistema de partidos como método de organização do sistema democrático também não é eterno. Se os partidos não evoluírem, num prazo de cinco a dez anos, podemos assistir a um sistema democrático sem partidos. Veja-se o que se está a passar em França. Sarkozy convidou para funções públicas figuras muito relevantes da oposição e elas aceitaram. Strauss-Khan, por exemplo, podia ser o líder socialista e aceitou um convite de Sarkozy para ser director-geral do FMI. Onde estão os partidos? Onde estão as lutas ideológicas?
A diferenciação está a perder-se?
Sim. Além de algum populismo de oposição, vejo-me aflito para encontrar diferenças entre o PSD e o PS há muitos anos.
Falta ideologia?
Diz-se que os militares fazem sempre a última guerra e não aquela que está a acontecer. Os partidos também. Ainda estão dez ou vinte anos atrasados. Já houve momentos em que as grandes contraposições eram ser clerical ou anticlerical, monárquico ou republicano, defender as empresas públicas ou as não públicas. Essas contraposições evoluíram, desapareceram. Já ninguém se polariza nesses temas. Os partidos têm de encontrar outras polarizações. Por isso é que tenho defendido a fusão do PSD com o CDS. Não há nenhuma hipótese de lutar contra José Sócrates daqui a dois anos se não se fundirem. Eles e mais forças sociais que não se revêem nos dois partidos. O meu filho mais novo, que está no último ano da universidade, disse-me, antes da eleição de Lisboa, que os seus amigos são quase todos de direita e iriam votar em branco ou em António Costa. Nenhum daqueles jovens se revê minimamente no PSD e no CDS, não sendo nem querendo ser socialistas. Talvez se possa dizer que foi por causa do meu filho que votou por minha causa. Talvez. Mas não deixa de ser sintomático. Se olharmos para os opinion-makers à direita, para grandes vultos do empresariado activos em causas cívicas, nenhum deles dirá que é do PSD ou do CDS. Pior, terão vergonha em reconhecê-lo.
Várias vezes PSD e CDS estiveram juntos em batalhas eleitorais e no governo, fizeram alianças e coligações. Nem sempre correram bem, como se viu no passado recente. Haverá condições para novos entendimentos?
Os políticos estão habituados a insultarem-se na sua honra num dia e ficarem a rir à gargalhada no dia seguinte. Comigo não é assim. Telmo Correia vai ter que me pedir desculpa por ter dito que eu andava à procura de tachos senão nunca mais lhe falo… Infelizmente, o mundo da política é, muitas vezes, diferente. Seja como for, se há dirigentes que não se dão outros dar-se-ão. Assim como no passado defendi que era fundamental a bipolarização, como muitos a dizer que era perigosíssima; como defendi que era essencial apoiar o bloco mais moderado da direita, que era o PSD; hoje digo que é muito importante consolidar dois blocos muito fortes: um liderado pelo PS e outro por um grande partido de centro-direita. Um partido de centro-direita sem complexos, que possa criar empatia com a sociedade que não se identifica com o PS.
O PSD tem de abdicar da social-democracia?
Escrevi há muitos anos um texto longo e esquecido sobre o pensamento político de Sá Carneiro. Foi tão esquecido no PSD que nas várias comemorações ninguém se lembrou nem do autor nem do texto… Defendia que para Sá Carneiro a social-democracia era um liberalismo avançado, um ponto de chegada e não um ponto de partida. Nas ideologias tradicionais, a social-democracia era uma caminhada para o socialismo. Sá Carneiro não queria caminhar para o socialismo. Não querendo dizer que apoie os socialistas, o que vejo hoje é que o PS está a defender um liberalismo avançado. O país virou muito para a direita. Eu deixei-me ficar. Não gosto de fazer ginástica, de correr nem de andar na praia. Sou muito preguiçoso. Fiquei mais ou menos no mesmo sítio onde estava há vinte e tal anos… O PSD tem de se reinventar ideologicamente. O espaço que ocupou, por causa da esquerdização enorme do PS a seguir ao 25 de Abril, foi tomado pelos socialistas. Há absurdamente um espaço na direita que não está ocupado. A direita tem de se assumir como direita. Quero um partido de direita forte para tornar a vida mais difícil a José Sócrates, para que a única pressão não venha da esquerda e o PS acabe por não fazer as reformas.
O problema do PSD não é de liderança?
Também é uma questão de liderança, mas é um problema ideológico. O PSD devia ser capaz de fazer um programa ainda mais reformista que o do PS.
Exemplos?
Compare o que fez Durão Barroso com o que está a fazer Sócrates. O PSD tem de apostar numa lógica de segurança, mais do que numa lógica de liberdade (no sentido político), que aposte mais na liberalização económica do que no estado social, que vá mais longe na reforma das universidades, da segurança social, do Estado, que assuma os despedimentos no Estado. Não há um partido que tenha a coragem de dizer que há 25 a 30% de trabalhadores a mais no Estado, que se deve fazer no Estado o que se faz em qualquer empresa: negociar, pagar e despedir. Para que serve um partido de direita se está a atacar o PS pela esquerda? É absurdo. Gostei do brilho de Luís Filipe Menezes no dia seguinte às eleições de Lisboa! Pode competir-se com os comunistas para ganhar alguns votos – Le Pen também o fez –, mas não se podem mobilizar os eleitores moderados não socialistas sem um programa diferente. Esse não será o meu partido, mas esse partido tem de existir. Tive sempre a fama de ser da ala liberal, da ala direita, do PSD. Cansei-me de dizer que assim não era…
Reconheça que é um homem contraditório…
Sou um ser humano! Não há dúvida é que não me revejo num partido à direita. Critiquei António Costa há uns meses quando lhe chamei «o Sarkozy de Camarate» por causa de uma operação espectacular da polícia. Se sou alguma coisa, sou um libertário. Tenho muitas preocupações sociais. Sou contraditório.
Há uns anos confessou que o PSD era para si «um fato velho» no qual se sentia bem e não via nenhuma razão para mudar de fato enquanto não o apertar e ofender. Saiu do PSD por o fato o apertar e ofender?
Ofender, não. Mas magoou-me. Um exemplo. Marques Mendes e Luís Filipe Menezes convidaram-me para cargos políticos. A ambos disse que agradecia, não aceitava, mas se precisassem de mim para ajudar podiam contar comigo. Marques Mendes, em dois anos, nunca sentiu necessidade de me telefonar a perguntar uma opinião. Achei um pouco bizarro. Quando fizeram duas homenagens a Sá Carneiro convidaram tudo e todos. O último advogado de Sá Carneiro, o homem que mais teorizou o pensamento político de Sá Carneiro nunca foi convidado, já não digo para fazer um discurso, mas para estar presente nas cerimónias. O PSD não gostava de mim. Porque sou incómodo, digo o que penso, não me inibo de criticar quando entendo. Quando o PSD foi governo eu era bastonário. Tive de ser muito duro com o governo, seria duro com qualquer governo, e essas coisas não se esquecem… Portanto, o «fato rasgou-se» e saí. E voltei a ser o que, provavelmente, sempre fui, um independente.
Como é que se define politicamente?
Em matéria política vou ao supermercado e compro o que me apetece. Não aceito menu, não gosto de comer ementa única. Sou muito contraditório, como a maior parte dos portugueses.
Disse uma vez que deveria ter sido um homem de esquerda, mas quando era jovem «a esquerda estava cheia de gente»…
Depois do 25 de Abril não virei à esquerda, virei à direita. Antes tinha defendido soluções que seriam hoje consideradas de extrema-esquerda: nacionalização integral da banca, reforma agrária sem indemnizações. Ainda hoje, sem demagogia ou populismo, sou defensor de soluções para o ordenamento do território que só sectores muito à esquerda defendem. Ao mesmo tempo, sou favorável ao despedimento sem justa causa de funcionários públicos, o que nem partidos mais à direita defendem, sou a favor da liberalização do aborto, sou adepto da regionalização. Muitas vezes, mudo de opinião. Antes do 25 de Abril defendia que a universidade devia ser gerida paritariamente por professores e estudantes. Hoje, penso que é um erro total. Há ideias que não mudo: desde o 25 de Abril que sou contra o intervencionismo do Estado na economia. Nas presidenciais de 1986 era apoiante de Freitas do Amaral, mas disse que preferia que Freitas do Amaral perdesse contra Mário Soares do que ganhasse contra Salgado Zenha. Porque me parecia que para o sistema política era muito melhor solução, que estaria na base de 20 anos de progresso.
É advogado, foi bastonário dos advogados, empreendedor, gestor de comunicação social, político, o que é que motiva mais?
Viver, viver.
E o viver tem de ser múltiplo?
António Lobo Xavier dizia há dias num debate [Quadratura do Círculo, SIC Notícias] que eu faço só e apenas o que me apetece e que me estou nas tintas sobre as consequências do que acho que devo fazer. É exactamente isso. Se amanhã me apetecer escrever romances sou capaz de largar tudo para escrever romances. Se me apetecer ir para a Austrália vou para a Austrália… Não tenho um projecto de vida, tenho projectos na vida.
Que lhe apetece mais nesta altura?
Escrever um livro sobre o Mediterrâneo.
Porquê?
Porque me parece que é ali que está o futuro do mundo, a paz e a guerra. Desde que falei disso pela primeira vez, muito se tem dito sobre a importância do tema… Vou em Setembro a um congresso de advogados de ordens do norte de África e do sul da Europa. Sarkozy lançou a Union Méditerranée. Estive há dias com o antigo presidente da Generalitat da Catalunha, Pascal Maragall, que é um grande defensor do Mediterrâneo, e ficámos de trocar textos… Ia passar este Verão a escrever o livro, mas de repente tive um desafio que me entusiasmou e larguei o livro pela candidatura de António Costa à Câmara de Lisboa. Porquê? Porque me apeteceu.
Porque é que nunca quis fazer da política o seu grande desafio? Porque é que não investiu mais na política?
Por razões variadas. A mais importante, por razões financeiras. Em várias alturas da minha vida, não para ser mais feliz, mas necessitei de ganhar dinheiro. Uma vez, numa conversa com Cavaco Silva tive de lhe dizer quais eram as minhas despesas fixas com os meus filhos e ele respondeu-me: Você com essas despesas nunca poderá ser ministro! Retorqui: Imagine o que sofreria se gostasse de o ser… Também não tive nenhum convite suficientemente estimulante e não sei como reagiria se o tivesse tido. Fui sondado em 1978 para ser secretário de Estado da Cultura no Governo de Mota Pinto. Disse que não. Tinha na altura 29 anos. Mas desde que me filiei no PSD em 1981 até 2006 nunca ninguém me convidou para qualquer cargo político. Portanto, também não tive de recusar. A terceira razão é que me parece que sou mais útil ao país fazendo outras coisas. Ser bastonário, gratuitamente e perdendo muito dinheiro, foi um cargo público e nesse sentido político. Já dei à cidade muito mais do que a generalidade dos portugueses que tiveram a possibilidade de ganhar muito mais do que a fazer política.
Coordenar a reabilitação da frente Tejo, a confirmar-se o convite do primeiro-ministro, será uma actividade não remunerada e a tempo parcial. É compatível com a advocacia? Cria limitações ao seu escritório?
É compatível. Criará algumas limitações. Se for confirmado o convite, o tempo que vou dedicar a esse cargo será tirado a actividades não remuneradas. O desafio dificílimo que terei pela frente será suficientemente estimulante para o aceitar.
Qual é a maior urgência para Portugal?
As duas maiores urgências, até pelo tempo que demoram, são a reforma do sistema educativo e a reforma do sistema de justiça. Se estes dois sistemas passarem a funcionar em uma/duas gerações, o país muda radicalmente. Como medidas urgentes é preciso levar a sério a reforma do sistema político, não apenas a reforma eleitoral, a organização partidária, mas também a relação entre os poderes local, regional e nacional.
Tem alguma proposta concreta?
É importante o sufrágio uninominal num sistema misto ou a duas voltas, como em França. É preciso ligar mais o eleitor ao eleitorado. É preciso que entrem no sistema pessoas que estão fora dos partidos. E é preciso que se criem blocos políticos claros e antagónicos.
Estamos a ser bem ou mal governados?
O que Sócrates já começou e, em parte, já praticamente acabou é mais do que se fez nos últimos 30 anos. É um facto objectivo indiscutível…
Está a incluir o período em que Cavaco Silva foi primeiro-ministro?
Cavaco Silva foi até agora o melhor primeiro-ministro de Portugal, mas esteve dez anos no governo. Vamos a ver se Sócrates está lá dez anos! Os primeiros dois anos são os mais fáceis. O melhor governo de Cavaco Silva foi o primeiro… Até ver, Sócrates ainda não pode aspirar a ser o melhor primeiro-ministro português. Tem ainda de pedalar muito. Agora, as reformas que pôs em prática têm mérito, talvez porque as necessidades as impõem, talvez para salvar o que resta de estado social… O PCP e a CGTP ainda não perceberam nada do filme. Se estas reformas não tiverem sucesso, as seguintes serão muito piores. Julgo que o Governo está no bom caminho. Há ministros piores do que outros… A ministra da Educação está a fracassar fortemente. O ministro da Saúde está numa luta muito dura, percebo-o bem e aos erros que comete quando perde a cabeça… Não tem feitio para aguentar aquilo. O resultado vai medir-se no Orçamento.
Preocupam-no os sinais de autoritarismo na máquina do Estado? A democracia portuguesa sofre de claustrofobia?
Estarei sempre do lado dos que são atacados, punidos, castigados, por falarem. Porque já fui vítima por falar. Portugal é um país de vidrinhos ou de vidrecos…
Gente demasiado susceptível?
Muito susceptível. Eu sou susceptível. Quando dizem que quero tachos fico ofendido, mas não vou por um processo a Telmo Correia! Ele definiu-se a si próprio daquela maneira e foi castigado, porque Deus existe… Uma coisa é sentir-me magoado, ofendido e irritado, outra é ir levantar processos, como foi o caso Charrua.
Há limites?
D. Pedro II, imperador do Brasil, dizia que as ofensas que se fazem nos jornais atacam-se nos jornais e não nos tribunais. Os portugueses só querem ser dirigidos por ditadores e adoram atacar o poder autoritário. Quem são as grandes figuras da governação portuguesa: Marquês de Pombal, Salazar, Cavaco Silva, Eanes…
E Sócrates?
Vai nessa linha, claramente. São magros, determinados, fortes, não cedem à pressão.
Os portugueses não amam suficientemente a liberdade?
Não amam. São uns anarquistas completos. Querem ser governados por esses, mas querem estar sempre a dizer mal deles. O que se dizia de Cavaco! Mas depois aparecem os bonzinhos, os gordinhos, os dialogantes, os doces, os que estão sempre de acordo com quem falam, os Guterres, os Barrosos, e no ranking dos primeiros-ministros não os colocamos em destaque. O país é assim, esquizofrénico. Temos de viver com a esquizofrenia dos portugueses ou então emigrar. Há em nós uma pulsão autoritária e uma pulsão libertária. Provavelmente, é por isso que estamos vivos. Nesta altura, se fosse oposição, arranjava provocadores que iam chamar nomes ao primeiro-ministro e aos ministros para terem muitos processos… O absurdo é que a imagem do primeiro-ministro se vá desgastar por causa de uns tipos que ninguém sabe que existem. O dr. Charrua só era conhecido pelos seus amigos mais íntimos, por três empregadas domésticas que existam nas casas vizinhas e por mais 14 colegas de curso, antes de se tornar numa figura nacional que terá dito qualquer coisa que não se sabe o que é: um desabafo, uma piada, uma provocação?
E as práticas de delação?
Miseráveisl! Fui preso a seguir ao 28 de Setembro de 1974 e eram tantos os presos que me meteram a mim e a outros em celas onde estavam agentes da PIDE. Um deles disse-me que, se antes do 25 de Abril tivessem prendido todas as pessoas que foram denunciadas como comunistas, teriam aprisionado mais de metade da população… Isto é Portugal! E não muda de um dia para o outro. Somos um país muito merdoso! Quem governa tem de se encher de paciência, tem às vezes de ter vergonha de quem está a governar. Mas tem de aguentar. Porque ninguém é obrigado a governar. Quem foi para lá foi porque quis. Se eu for nomeado para coordenar a reabilitação da frente Tejo, que é um cargo técnico, não é político, vou levar porrada, vou ser atacado, injuriado, e vou ter de aguentar. Que hei-de fazer! Depois vou-me embora…
Já tem couraça para isso?
Não. Vou ficar furioso, vou sofrer, dormir mal, vou chamar nomes que justificariam processos-crime…
“TIVE VÁRIAS, QUASE TODAS TÃO PESSOAIS E SÓ COMPREENSÍVEIS PARA QUEM AS FEZ”
Coimbra é a cidade que traz no coração, mas é capaz de ir onde for preciso por um bom prato de lampreia.
Férias no Verão ou repartidas?
Faço férias curtas. Uma semana no Algarve e depois uma viajem entre Bilbau e San Sebastián. Vou com a minha mulher de avião até Bilbau, aí alugo um carro. Vou ao Museu Guggenheim, ao restaurante Arzak e a uma tourada em San Sebastián. Depois faremos um circuito Relais & Chateaux no sul de França, Bordéus, castelos do Loire e Paris. Em Setembro, irei a Veneza a um congresso sobre zonas ribeirinhas (à minha custa, esclareço).
Qual foi até agora a viagem da sua vida?
Tive várias, quase todas tão pessoais e só compreensíveis para quem as fez. Mas posso falar de uma viagem que fiz com os meus três filhos pelo Atlas, de Agadir a Marraquexe.
Qual é a sua cidade favorita?
Por muito politicamente incorrecto que seja, continuo a dizer Coimbra. Ás vezes, faz-me sofrer, faz-me mal, mas adoro Coimbra. E, obviamente, Lisboa que me recebeu como imigrante e que me deu muito mais do que alguma vez esperava ter.
Sabe cozinhar?
Não.
Qual é o seu prato perdilecto?
Se tenho que escolher um, escolho um clássico que é a lampreia, o único que me faz deslocar para comer. Talvez seja o que gosto mais.
Que está a ler?
Acabei de ler uma biografia sobre D. Pedro II e outra sobre Sarkozy. Estou a ler um livro sobre os pais fundadores dos EUA, o Diário de Paris, de Marcello Mathias, estudos sobre frentes de rio e de mar, também Direito brasileiro por causa de uma arbitragem.
Para que é que lhe falta paciência?
Para os merdosos, para os que mordem pela calada, para os que fazem salamaleques à frente e atacam pelas costas, para os que não são sérios, para os corruptos, para os mentirosos, para os que não respeitam os que sofrem, para os que abusam dos seus privilégios, quer sejam milionários ou trabalhadores por conta de outrem, para todos aqueles que deveriam ter vergonha de se olhar ao espelho.
Quem é o seu melhor advogado?
O melhor advogado que conheci é o Luís Sáragga Leal. Há grandes advogados portugueses. As pessoas que melhor me defendem, porque gostam muito de mim, são os meus filhos e a minha mulher. Mas são maus advogados porque me defendem além do que mereço…
O que seria o seu mundo perfeito?
Um mundo horrível. Gosto de um mundo imperfeito…
Se estivesse perante uma plateia que não o conhecesse, como se apresentaria?
Talvez citasse Sá de Miranda:«Homem de um só parecer,/ Dum só rosto, uma só fé,/ Dantes quebrar que torcer,/ Ele tudo pode ser,/ Mas de corte homem não é»
Ou o Pe. António Vieira:«Vós fizesteis o que devíeis. A Pátria o costume.»
Perfil: José Miguel Júdice
José Miguel Júdice é um homem, admirado à direita e respeitado à esquerda. Há uns anos, dizia numa entrevista a Pedro Santana Lopes: «Deveria ser um homem de esquerda mas, quando era jovem, a esquerda estava cheia de gente, e eu sempre gostei de praias com pouca gente, e agora já estou velho para mudar.» Indomável, contraditório, libertário, independente, não se reconhece numa «ementa única». Diz não ter um projecto de vida, mas projectos na vida. Gosta muito de ser advogado, quer ser advogado até morrer. Foi advogado de Sá Carneiro. Entrou para o PSD um ano depois da sua morte. Foi duas vezes líder da distrital de Lisboa. Em 1985 ajudou a escrever a moção com que Cavaco Silva havia de vencer o congresso da Figueira da Foz. Nem por isso aceitou cargos ou funções dirigentes. Alargou sempre a distância, só assumindo um lugar na direcção de Marcelo Rebelo de Sousa por amizade. Saiu no ano passado do PSD porque já era um «fato velho» e se «rasgou». Nasceu há 58 anos em Coimbra, na Quinta das Lágrimas. Propriedade da família que reabilitou e foi o início da construção de um grupo ligado ao turismo e à restauração. Casado, tem três filhos a quem vai passar totalmente os seus interesses nesta área.
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