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Obrigações de baixo risco

BPI fecha fundo de 90 milhões para evitar crise

Sílvia de Oliveira e Paula Alexandra Cordeiro  
26/09/07 09:05


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Banco garante devolução do dinheiro num prazo de cinco dias e assegura que os problemas foram eliminados.


O BPI decidiu, em plena crise financeira do ‘subprime’, proceder à liquidação de um fundo de investimento mobiliário, com activos sob gestão no montante de 88 milhões de euros. Segundo um comunicado divulgado ontem pelo banco liderado por Fernando Ulrich, “a decisão de extinção do Fundo [BPI Renda Trimestral] tem subjacente o interesse dos participantes e também uma perspectiva de simplificação da oferta de fundos de investimento”. A carteira do fundo é composta, sobretudo, por obrigações, integrando, porém, alguns créditos hipotecários. Fonte oficial do BPI disse ao Diário Económico que, “face às actuais condições dos mercados financeiros, a perspectiva de distribuição de rendimento, no futuro próximo, é incerta e, nessas condições, foi decidido, no interesse dos participantes, liquidar o fundo, pagando o rendimento correspondente ao trimestre que agora finda e devolvendo aos participantes a totalidade do capital investido, sem qualquer prejuízo”. O mesmo responsável sublinhou ainda que este fundo de investimento é constituído por obrigações de baixo risco, com elevada liquidez que, como o nome indica, tem como objectivo distribuir trimestralmente um rendimento, nas condições previstas no prospecto.

O sector financeiro português não está imune aos riscos de contágio e, sobretudo, depois do caso do Northern Rock, surgiram alguns rumores de que também os bancos em Portugal começavam a acusar as primeiras dificuldades, sobretudo na área dos fundos de investimento.  Uma crise financeira, mas também de confiança. Um indicador dessa eventualidade foi o saldo líquido da indústria dos fundos de investimento mobiliário, em Agosto, ter sido, pela primeira vez, desde 2002, negativo. O Diário Económico confrontou os principais grupos financeiros nacionais com esta possibilidade, bem como o presidente da associação dos fundos, Vasconcelos Guimarães, mas todos garantiram desconhecer a existência de qualquer problema. De facto, no caso deste fundo do BPI, cujo processo de liquidação deverá ficar concluído no dia 2 de Outubro, não existe, neste momento, qualquer problema de liquidez. Ou seja, os participantes irão reaver o capital investimento, bem como uma remuneração positiva. O que o banco faz é apresentar uma solução para resolver um problema futuro, ou seja, poupar os subscritores das unidades de participação deste fundo de perdas futuras.

Ao que o Diário Económico apurou, existirão outras situações delicadas nas sociedades gestoras de fundos dos principais bancos portugueses, mas os banqueiros têm optado, porque se tratam de fundos com outro tipo de características, por tentar gerir o problema em silêncio. O receio de que os investidores entrem em pânico aconselha alguma prudência. Hoje mesmo, o presidente do regulador do mercado de capitais, Carlos Tavares, emitirá, em conferência de imprensa, a sua opinião sobre a crise do ‘subprime’ e os riscos para Portugal. O Diário Económico tentou obter ontem uma reacção da CMVM à decisão de liquidação do fundo do BPI, mas fonte oficial da autoridade de supervisão limitou-se a dizer que “está a seguir a situação com todo o cuidado para evitar que os investidores e participantes sejam prejudicados”.  O mesmo responsável remeteu mais esclarecimentos para a conferência de hoje, mas ao que o Diário Económico apurou, o regulador considera existirem, neste momento, alguns motivos para preocupação. É que o BPI liquida um fundo, mas não resulta daí qualquer prejuízo para os seus clientes e não é possível garantir que não se verifiquem casos preocupantes.


APFIPP desvalorizou impacto da crise nos fundos
Menos de uma semana depois de Manuel Vasconcelos Guimarães ter afirmado ao Diário Económico que não havia motivos para alarme nos fundos nacionais, em relação a um contágio pela crise de ‘subprime’, o BPI anunciou o fecho de um fundo de investimento. “Estamos tranquilos com a indústria de fundos”, afirmou, em entrevista, ao Diário Económico, na passada semana, o presidente da Associação de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios (APFIPP). O Diário Económico contactou Manuel Vasconcelos Guimarães para obter uma reacção ao fecho do fundo de investimento do BPI, mas até ao fecho da edição não foi possível obter qualquer resposta.

Na semana passada, o presidente da Associação garantia  não ter recebido “nenhuma informação de problemas no sistema [com fundos de investimento]”, apesar dos resgates no mês de Agosto terem atingido valores recorde.

Segundo o responsável, “os dados de Agosto reflectem o período de incerteza que afectou os mercados financeiros. É nestas alturas que determinados investidores vêem boas oportunidades que acabarão por constituir-se como motores de novas subscrições”.

O presidente referiu, na altura, ainda não ter informação sobre os níveis de resgate que os fundos possam estar a receber em Setembro, embora a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) ter confirmado um aumento da venda de posições dos investidores que têm parte da sua poupança alocada neste tipo de produtos de investimento.


O caso que abriu as portas da Europa à crise
Pode dizer-se que foi no dia 9 de Agosto que a crise do ‘subprime’ chegou à Europa. O mesmo dia em que o BNP Paribas suspendeu os levantamentos em três dos seus fundos – Parvest Dynamic ABS’, ‘BNP Paribas ABS Euribor’ e ‘BNP Paribas ABS Eonia’ –, justificando o acto com a impossibilidade de avaliar o valor dos activos, depois das perdas registadas no mercado de crédito à habitação de risco nos EUA começarem a espalhar-se pelos mercados mundiais. O fundos de investimento do maior banco francês geriam cerca de dois mil milhões de euros em activos, incluindo 700 milhões de euros em hipotecas no crédito à habitação de risco nos EUA com notações de ‘AA’ ou superiores. Com esta medida, o BNP Paribas seguia os seus congéneres Union Investment Management GmbH e Frankfurt Trust na suspensão dos pagamentos deste tipo de fundos. O pânico instalou-se, então, nos mercados financeiros europeus. Depois de os três fundos do maior banco francês foram congelados por um problema de falta de liquidez e perante a incerteza de quem enfrentaria dificuldades, as instituições bancárias, um pouco por toda a Europa, deixaram de fazer empréstimos entre si – apesar das sucessivas injecções do Banco Central Europeu no sistema financeiro.

A 30 de Agosto, o BNP Paribas procedeu ao descongelamento dos fundos, permitindo aos investidores voltar a transaccionar unidades, depois de ter “desenvolvido um mecanismo de avaliação” para calcular cotação, subscrições e resgates.


Acções no valor mais baixo do último ano
Os títulos do BPI desvalorizaram 6,4% em apenas dois dias e fecharam ontem no nível mais baixo desde Julho do ano passado. Depois de ter “resistido” ao tombo das bolsas em Agosto, provocado pela crise imobiliária dos Estados Unidos, o banco regrediu cerca de 10% em Setembro:  a maior queda    mensal desde Junho de 2001. Na sessão de ontem, as acções terminaram nos 5,80 euros (-3,65%), valor próximo dos 5,70 euros inicialmente oferecidos na OPA do BCP.  Com as recentes quedas, o BPI segue agora com perdas anuais de 1,86%, o quarto pior desempenho no índice PSI-20. De acordo com Pedro Pintassilgo, director de ‘research’ do BiG, o banco negociava, desde a oferta do BCP, com um prémio “muito excessivo” em relação aos seus pares europeus pelo que, na sua opinião, parte desta ‘performance’ é um movimento normal de correcção. As casas de investimento ainda não reagiram às quedas do BPI neste mês, atribuindo um preço-alvo médio de 6,62 euros às acções do banco.

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