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As mudanças no Estado começam a produzir efeitos. A Administração Pública liderou na destruição de emprego no segundo trimestre.
Mulheres-a-dias, trabalhadores de ONGs, prestadores de serviços a empresas e os serviços financeiros são das poucas áreas em que a oferta de emprego aumentou, no segundo trimestre, em Portugal. Ou seja, mais transacção e especulação, mas menos produção. Os dados relativos à criação de riqueza e de emprego mostram que Portugal é cada vez mais uma economia de pequenos serviços, pequeno comércio, de negócios financeiros e de tantos outros que giram em torno do fenómeno imobiliário, mas tem vindo a perder a base industrial. Fruto de um novo paradigma de concorrência global, que ditou o esvaziamento dos sectores tradicionais (têxtil e calçado, por exemplo), mas também da carência de trabalhadores com médias e altas qualificações e iniciativas empresariais inovadoras, o país conseguiu, o feito inédito de ultrapassar Espanha... no nível de desemprego. A reconversão do tecido empresarial começou tarde, evolui muito lentamente, continua a viver de actividades pouco produtivas, e defronta-se agora com um inesperado obstáculo: o maior custo no acesso ao crédito decorrente da crise que abala dos mercados financeiros, que vai atrasar os novos (bons) investimentos e os empregos do futuro, confirmam diversos economistas.Apesar do baixo crescimento do produto, e do emprego estar, em média, estagnado desde 2002, há áreas que estão a criar postos de trabalho. O que podia ser positivo. Mas que não é. Segundo o INE, as áreas que mais empregos criaram no segundo trimestre – período marcado por uma destruição de emprego de 0,5% a nível nacional – foram as actividades com empregados domésticos e as actividades de produção para uso próprio, os chamados outros serviços, com um crescimento de 11% face ao período homólogo. Logo a seguir, as actividades imobiliárias e os serviços prestados às empresas, que cresceram 10%. Nesta categoria caem serviços tão diversos quanto o aluguer de veículos, actividades informáticas, jurídicas, de contabilidade, de consultoria de gestão, segurança, limpeza industrial, embalagem, secretariado, organização de feiras, etc. Em terceiro lugar, figuram os serviços financeiros, com uma criação de emprego de 4%.
Francisco Van Zeller, presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), confirma que “só há criação de emprego digna desse nome nas áreas onde o valor acrescentado é mais baixo, não nos sectores de alta tecnologia ou de grande especialização pois ainda não há suficientes pessoas com essas qualificações, veja-se o caso dos engenheiros, nem investimentos à escala”. “Assim a criação de emprego assenta essencialmente nos serviços às empresas, limpezas, áreas comerciais e de vendas, no marketing, nos estudos de mercado”, junta. “As pessoas, mesmo as mais qualificadas como os antropólogos, os licenciados em jornalismo, em história, em literatura, ou não encontram emprego ou estão a aceitar trabalhos mal pagos”, ilustra o líder da CIP.
Rui Constantino, economista-chefe do Santander Portugal, faz um diagnóstico semelhante. “Muitas empresas fecharam nos últimos anos por causa da concorrência pois o modelo em que Portugal assentava deixou de ser competitivo, por isso a recuperação do emprego não será feita à custa dessas actividades”. Segundo o economistas, “a reconversão está em curso, mas é mais lenta, por isso, para já, são as actividades ligadas aos serviços empresariais a gerarem mais empregos”. São estas que melhor estão a conseguir acomodar uma pequena parte dos desempregados com qualificações acima da média (veja-se o caso dos licenciados) e do contingente de pouco qualificados que ficaram sem trabalho no contexto de mudança do paradigma produtivo. Uma pequena parte que, por isso, não chega para fazer recuar o desemprego dos níveis elevados em que se encontra: 8,3% da população activa, segundo o Eurostat que usa uma metodologia diferente da do INE. No entanto, a tendência é sempre igual: desemprego a subir.
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