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Até a Estátua da Liberdade ficou um pouco mais clara depois da saída do procurador-geral americano. Na terra da liberdade, ele era um extraterrestre sinistro.
Quem diria, quando Bush foi reeleito, que tudo iria acabar assim? A pouco mais de um ano do fim da presidência Bush, temos assistido à desagregação permanente de uma administração, a uma lenta mas firme agonia de um grupo de pessoas que há apenas três anos estava no máximo da sua glória (pelo menos na América, embora já não no resto do mundo), e tinha conseguido ser reeleita com vigor. Onde estão os heróis que se reuniam à volta de Bush, e que eram tão elogiados por certas pessoas em Portugal? Uns acabaram com o nome na lama, outros arrastam-se na obscuridade, de onde aliás nunca deviam ter saído. Rumsfeld, o artista do Pentágono, responsável pelo fiasco da ocupação do Iraque, e cujo nome ficou para sempre associado às imoralidades sinistras cometidas pela tropa americana nas prisões iraquianas, saiu de cena, humilhado e derrotado. Os deuses enlouquecem os arrogantes, principalmente os mais poderosos, e quando me lembro dos discursos de Rumsfeld, da sua completa obtusidade, penso sempre se ele não passava afinal de um medíocre desequilibrado mental que o destino protegeu para chegar onde chegou.Quanto a Paul Wolfowitz, essa lenda do neo-conservadorismo, o tal ideólogo da “democracia à força da bala”, o homem que segundo se diz conseguiu convencer os seus pares e os seus superiores que era viável a utopia idealista de exportar a democracia para o Iraque pela via dos bombardeamentos e das granadas, teve uma curta e mal sucedida passagem pelo Banco Mundial, depois de sair pela porta pequena da administração americana. Por causa de um pecadilho de saias e secretárias, aquela fina águia, de raciocínio limpo e aterrador, acabou também enxovalhada, sem honra nem glória de qualquer espécie.
Depois, houve mais alguns personagens menores que ficaram pelo caminho, mas desses não reza a história. Foi só quando Karl Rove atirou com a toalha ao chão que o mundo percebeu com a cabeça o que há muito sentia com o coração: a administração Bush chegara ao seu fim político, e daqui para a frente era um doente em estado terminal, que todos esperam que morra mais dia menos dia.
Rove era o génio da estratégia, o ‘spin doctor’, o “mastermind”, o homem que conseguira levar os republicanos em massa às urnas, como carneiros conduzidos por um talentoso pastor. Foi da maravilhosa cabeça deste senhor que saíu a principal estratégia de Bush: assustar tanto os americanos com o medo do terrorismo, que eles só podiam acreditar no seu presidente e na segurança que ele lhes proporcionava. Suportada por um facto real e aterrador - o 11 de Setembro - a estratégia resultou e foi eficaz enquanto durou a cegueira, o trauma, a vontade de vingança e a dor que ficou na alma americana depois dos ataques às Torres Gémeas. Mas, uma estratégia não pode ser apenas psicológica, tem de ter uma direcção política e militar correcta e justa, e aí a direcção foi a do desastre e da loucura iraquiana. Com o tempo, a América foi-se atolando, cada vez mais perdida, cada vez mais solitária.
Diz-se que quando um navio está a afundar, os ratos são os primeiros a deixá-lo. Parece-me que daqui até aos finais de 2008, muitos serão os ratos a deixar o navio Bush. Esta semana, saiu mais um a correr. O procurador-geral, o Sr. González, aproveitou umas celeumas menores para se pôr ao fresco. Não deixa saudades, pois foi ele que produziu algumas das mais nefastas decisões desta administração, chegando ao ponto de defender que certas formas de tortura são “aceitáveis”. De facto, quando uma democracia perde a alma que a inspira, torna-se uma caricatura que provoca repulsa e nojo. Até a Estátua da Liberdade ficou um pouco mais clara depois da saída deste procurador, pois na terra da liberdade ele era um extraterrestre sinistro e perigoso.
Há quem diga que George W. Bush não vai aguentar até ao fim do mandato, mas julgo que o mundo não vai ter essa sorte. Infelizmente, para a América e para o mundo, este barco não é o Titanic, e ainda vai demorar muito tempo a ir ao fundo.
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Domingos Amaral, Director da revista “Maxmen”
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