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“Os melhores” em certas profissões não serão necessariamente os melhores políticos. Se calhar não serão sequer bons.
Ninguém pode negar que a nossa vida política está cheia de interesses mesquinhos e gente pequena. Não surpreende, por isso, que se ouça um pouco por todo o lado que é necessário atrair “os melhores” para a política. Repare-se na expressão escolhida: usa-se o superlativo “os melhores” em lugar do (mais modesto) comparativo “melhores do que”. Esta diferença não é despicienda e merece alguns comentários.Primeiro, “os melhores” em certas profissões não serão necessariamente os melhores políticos. Se calhar não serão sequer bons. O exercício de um cargo político exige qualidades nem sempre relevantes para o sucesso profissional noutras áreas. (Basta pensar em casos recentes de excelentes profissionais que se revelaram políticos inaptos.) De entre essas qualidades está, por enquanto, um espírito de missão que não tem de existir noutras ocupações.
Segundo, a preocupação meritocrática patente neste tipo de discurso carece de um desconto, pois aparece hiperbolizada, por pelo menos duas motivações, possivelmente inconscientes: a procura de reconhecimento inter-pares (“os melhores apreciarão o que eu digo e procurarão que eu me junte a eles”) e o reforço da imagem positiva de si próprio (“se digo isto é porque sou ou estarei perto de ser um desses melhores”).
Terceiro, quando se fala em atrair “os melhores”, está-se muitas vezes a sugerir, em simultâneo, (1) que o que temos hoje não serve para nada e (2) que seria bom que surgisse alguém especialmente preparado (3) que conseguisse mudar o estado das coisas. Ou seja, uma tríade de derrotismo, culto sebastianista do homem providencial e preferência por grandes rupturas em vez de pequenas reformas.
Não me interpretem mal. Também quero viver num país melhor, liderado por pessoas mais capazes. Acredito que as elites têm um papel e uma responsabilidade fundamentais nessa evolução. Mas observo que retórica de trazer “os melhores” para a política acaba por funcionar como uma desculpa para não fazer nada. Fica o ‘soundbyte’, transformado em “linha orientadora” ou “objectivo a longo prazo” de quem o usa. As mudanças fazem-se passo a passo, com realismo. Precisamos de pessoas melhores na política, ponto. Os melhores serão sempre bem-vindos se vierem por bem.
tiago.mendes@economics.oxford.ac.uk
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Tiago Mendes, Investigador em Economia, Oxford
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