As consequências das acções de assassinos políticos têm de importar mais do que a sua estética e as suas intenções.
Costumo apreciar e bastantes vezes até concordar com o que escreve Ricardo Costa neste jornal. Qual não foi o meu espanto quando na sexta-feira passada o vejo testemunhar que tem e veste orgulhosamente uma camisola de Che Guevara. Diz o director da SIC Notícias que Che foi um “bandido e criminoso”, mas teve “a rebeldia e o romantismo como poucos têm”. Isso e outros ingredientes – “a época, o pioneirismo, a juventude” – “fazem dele um ícone único e fantástico”, e isso faz Ricardo Costa ter uma camisola do Che. Procurando apoiar a sua paixão com uma referência autorizada, o jornalista menciona o cartaz do Financial Times em que Branson é retratado por cima da cara de Che, oferecendo uma interpretação que, com o devido respeito, não tem qualquer sentido.Não estamos perante um branqueamento. Antes estivéssemos. Quando ouvimos Fidel ou Chávez ou Jerónimo a tecer loas a Che, não ligamos demasiado. Sabemos que a cegueira da religião do comunismo ainda sobrevive. Contudo, quando alguém que vemos como um espírito liberal opta por estes relativismos, instala-se um certo desespero. Não pela pessoa em si, entenda-se, mas pelo que isso sugere sobre o que será o pensamento do português mediano.
Quem negará que o 11/9 foi um acto “espectacular”, obra de uma “mente brilhante”, que fez de Bin Laden um “ícone” para muitas pessoas? Quem questionará que Hitler tinha uma grande “rebeldia” e um enorme “pioneirismo”? O que importa isso senão para reforçar a luta contra os seus seguidores?
Hitler e Che não são equiparáveis. Hitler aniquilou, de forma planeada, todos os que a sua “solução final” exigia aniquilar. Che abateu, de forma ‘ad-hoc’, todos os que se foram tornando um obstáculo à sua romântica utopia. O que fizeram tem graus obviamente incomparáveis. Mas eles partilham – e é essencial acentuar isso – o desprezo pela vida humana e a disponibilidade para recorrer a qualquer meio para fazer vingar o mundo totalitário com que sonhavam.
A ideia de que os mortos do comunismo não são um corolário desse ideal mas um resultado da “impureza” dos homens é inaceitável em 2007. As consequências das acções de assassinos políticos têm de importar mais do que a sua estética e as suas intenções. De sedutores e de boas intenções está o inferno cheio.
tiago.mendes@economics.oxford.ac.uk
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Tiago Mendes, Investigador em Economia, Oxford
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