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Valores exactos à parte, estranho seria que um bom administrador não ficasse com uma fatia significativa do excedente criado.
1. A ética empresarial é um terreno escorregadio. Na óptica do accionista, um negócio serve para criar valor, não para ser um poço de virtudes. Contudo, algumas regras – umas escritas, outras nem tanto – querem-se cumpridas. Jardim Gonçalves, ao pagar a dívida do seu filho, reconhece ter cometido um erro; ou então considera que 12 milhões de euros é um preço aceitável a pagar para abafar acusações injustas de falta de idoneidade na concessão desse empréstimo. No primeiro caso, não se tiram as consequências devidas desse “arrependimento”; no segundo caso, lida-se de forma duvidosa com o dinheiro dos accionistas. De qualquer modo, a imagem do banco fica de momento ferida.2. Têm-se avolumado as críticas às remunerações dos administradores do BCP. Mesmo os que dirigem o BPI, agora interessados numa fusão, recentemente se insurgiram contra os seus prémios chorudos. Mistura-se muito esta questão com a da boa governança, o que é de algum modo compreensível - mas só até certo ponto. No século XIX, David Ricardo explicou que as “rendas económicas” geradas por um negócio são apropriadas pelos detentores dos factores de produção relativamente mais escassos. E dá o exemplo de dois terrenos de cultivo com diferente produtividade, explicando que o lucro “anormal” do terreno mais produtivo irá para o seu dono, que detém o recurso mais escasso – a terra de superior qualidade –, e não para quem nele labora, que ganhará o que receberia por trabalho idêntico num terreno alternativo.
Numa empresa cotada a situação é análoga. Os accionistas são em larga medida substituíveis, pelo que devem ser remunerados sobretudo de modo a compensar suficientemente o risco que correm. Os trabalhadores que contribuem de forma marcada para o sucesso da empresa têm direito a receber parte dos lucros gerados. De entre estes, os que delineiam a estratégia do banco e o dirigem são os mais insubstituíveis. Valores exactos à parte, estranho seria que um bom administrador não ficasse com uma fatia significativa do excedente criado. A questão (importante) da desigualdade de rendimentos tem de ser pensada num contexto e numa escala bem diferentes.
Nota: A liberdade empresarial é um bem essencial mas não absoluto. Muitas qualidades da economia de mercado fundam-se na ideia de concorrência. A fusão Millennium-BPI não é desejável.
tiago.mendes@economics.ox.ac.uk
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Tiago Mendes, Investigador em Economia, Oxford
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