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Tiago Mendes

Morta à nascença

Tiago Mendes  
14/11/07 15:00


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Um banco que sugere uma fusão “amigável” propondo condições à partida mostra ter uma estratégia ambiciosa mas mal delineada.

Uma fusão entre BCP e BPI seria benéfica para os grandes clientes e prejudicial para os pequenos clientes. Se bem sucedida, também os accionistas dos dois bancos sairiam a ganhar. As grandes empresas beneficiariam no que respeita à internacionalização e aos serviços de banca de investimento. A perder ficariam os particulares e as PME, que, com pouco ou nenhum poder negocial junto de cada banco individualmente, sofreriam com o aumento de preços que a diminuição no número de ‘players’ sempre traz. Como referiu Luís Aguiar-Conraria, no “Público”, com esta fusão os dois principais bancos ficariam com 60% de quota de mercado e os quatro maiores com 90% – percentagens que falam por si. Num país em que o investimento privado faz falta e as desigualdades se acentuam, estes efeitos são difíceis de ignorar. Contudo, a vontade dos dois bancos se juntarem não é ilegítima.

Algumas vezes o que desejamos coincide com o que prevemos. É o caso. A OPC está inquinada porque nasceu torta. Um banco que sugere uma fusão “amigável” propondo condições à partida, ainda para mais desrespeitadoras para os accionistas do banco visado, mostra ter uma estratégia ambiciosa mas mal delineada. Soma-se a isto o facto de as culturas dos dois bancos serem muito diferentes, o que torna a “mestiçagem” difícil. Em suma, ou se avançava para uma OPA – necessariamente “colonizadora” – com um bom prémio, ou se preparava convenientemente a fusão nos bastidores. Sinal de um certo desnorte foi, de resto, a discussão do assunto na praça pública.

O desmantelamento do BCP é uma hipótese improvável, não obstante a sua actual crise. Por muito que isso agrade aos jornalistas, a vida de um banco não é uma sucessão de ‘sprints’. A hipótese de compra do BCP por parte de um banco estrangeiro é largamente teórica. Um banco rentável, de dimensão consolidada nos seus principais mercados e com uma cultura muito forte não é assim tão apetecível. Em todo o caso, sabemos que, nesse longínquo cenário, o número de ‘players’ se manteria e os serviços prestados aos clientes se alargariam. Lembro ainda que, num mercado muito regulamentado e onde dificilmente se descobrem problemas de soberania, não há razões sérias que sustentem a teoria dos “centros de decisão nacional”. O futuro do BCP pode parecer sombrio a muitos, mas não se esgota no preto ou branco.

tiago.mendes@economics.ox.ac.uk
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Tiago Mendes, Investigador em Economia, Oxford

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