Onde a morte de Ghandi simbolizou o nascimento de uma nação, a morte de Bhutto poderá assinalar o princípio do fim do Paquistão.
No dia 30 de Janeiro de 1948 Ghandi foi assassinado por um nacionalista hindu. O sociólogo indiano Ashis Nandy descreveu o assassinato de Ghandi como o resultado de uma espécie de “desejo de morte” do próprio: as reacções emocionais à sua morte violenta investiriam o sacrifício de significado mítico, tornando Ghandi num símbolo unificador da Índia enquanto Estado-nação.Uma semana depois do assassinato de Benazir Bhutto, algumas análises mais emocionais sugerem que o mesmo desejo de martírio pode explicar a forma pouco cuidadosa como Bhutto se expôs nas acções de campanha: Benazir seria uma “mártir da democracia”, tal como Ghandi havia sido um “mártir do nacionalismo”. Mas a analogia simbólica é defeituosa. Na verdade, o assassinato de Bhutto poderá produzir no Paquistão efeitos diametralmente opostos aos decorrentes do assassinato de Mahatma Ghandi na Índia: onde a morte de Ghandi simbolizou o nascimento de uma nação, a morte de Bhutto poderá assinalar o princípio do fim do Paquistão.
A explicação reside na natureza histórica do Paquistão. Desde os primeiros conflitos de Caxemira, em 1947, que o Paquistão é um estado militarizado, onde as Forças Armadas constituem o único garante do Estado perante a ameaça fundamental de fraccionamento tribal. A natureza do regime político nunca foi relevante, nem tão pouco os elementos do clã Bhutto sucessivamente assassinados podem ser considerados “mártires da democracia”.
Apesar de formalmente favorável a um regime democrático e secular, o Partido do Povo Paquistanês (PPP) é um partido islâmico, altamente centralizado, com ambição hegemónica e cujos períodos de governação ficaram sempre marcados por escândalos de corrupção. Os únicos adversários do clã Bhutto na luta pelo controlo do Estado são as Forças Armadas, não outros partidos, e foi à tentativa de restauro do domínio dos Bhutto que Benazir se entregou com assinalável coragem. Foi na busca dessa hegemonia que morreu, não da democracia.
Na luta pelo controlo do Paquistão, o clã Bhutto deixou duas heranças que ameaçam simultaneamente a sobrevivência do país e a segurança ocidental: um arsenal de mísseis nucleares e uma autoridade governamental enfraquecida pela guerrilha tribal, em aliança com os ‘talibans’ e jihadistas da Al Qaeda.
Foi Zulfikar Ali Bhutto, pai de Benazir, quem lançou o programa de armamento nuclear paquistanês, garantindo com irónica presciência que “o povo comeria ervas antes de abdicar da luta pela posse da arma nuclear”. Em 1976 financiou a criação da Engineering Research Laboratories, a companhia montada por A. Q. Khan para proceder à centrifugação de urânio. Ali Bhutto seria deposto em 1977, mas o programa nuclear paquistanês continuaria a ser um objectivo do Estado, não do regime.
Ali Bhutto referia-se, aparentemente com ressentimento, às bombas nucleares “cristãs, hindus, judaicas e comunistas”, sugerindo a possibilidade inquietante de uma futura arma nuclear paquistanesa vir a constituir-se como a “bomba muçulmana” e a tecnologia transferida para países islâmicos interessados, como a Líbia, o Irão ou a Arábia Saudita. Alguns destes terão co-financiado o programa nuclear paquistanês precisamente nessa perspectiva.
O risco de proliferação nuclear mudou para pior. Já não são estados os potenciais clientes da “bomba muçulmana”: hoje são grupos jihadistas aliados aos ‘talibans’ – os mesmos que Benazir Bhutto apoiou na subida ao poder no Afeganistão em 1996 e que ameaçam agora destruir o Estado paquistanês e apoderar-se de armamento nuclear.
A evidência disponível sugere que a Al Qaeda se reorganizou no Paquistão. Se conseguir apoderar-se de algum dos sessenta mísseis nucleares paquistaneses, o fabrico de uma bomba nuclear é razoavelmente simples. Segundo o perito em terrorismo nuclear Graham Allison, para tal bastam 50 kg de urânio enriquecido e menos de um ano de trabalho. A generalidade das estimativas credíveis colocam a probabilidade de um explosão nuclear nos EUA durante os próximos dez anos entre 30 e 50%. Dadas as consequências devastadoras daí resultantes, o risco de terrorismo nuclear é proibitivamente elevado.
Um estado em desagregação tribal, uma regressão à barbárie no Afeganistão e sessenta “bombas muçulmanas” acessíveis a grupos terroristas islâmicos. Eis o legado do clã Bhutto e das forças militares que se lhe opõem. A morte de Benazir não deve inspirar panegíricos emocionados, mas análises sóbrias, até porque escasseia o tempo para evitar que a bomba muçulmana rebente – e que a bomba persa nasça.
____
Fernando Gabriel, Doutorando do Instituto de Estudos Políticos
Comentários
Publicidade
Collapse
Última Hora
- 20:25
PS afasta ataques a Sócrates após arquivamento das escutas - 19:25
Ministério investiga caso dos documentos judiciais deixados no lixo - 18:55
Explosão em mina na China faz 92 mortos - 18:31
Banderas quer dedicar-se ao turismo - 18:18
Morreu o primeiro cosmonauta civil soviético - 17:15
Reforma da saúde passa o primeiro teste no Senado - 16:41
Dalai Lama nega que Obama seja "brando" com a China
Collapse







eu queria saber como é a natureza do paquistão