Os produtos de consumo vendidos nos supermercados que dizem melhorar a saúde deviam ser fiscalizados como os medicamentos.
Actualmente os conceitos de evidência científica, valor acrescentado e mais-valia são constantes quando se fala em medicamentos, sobretudo quando se discute o conceito de inovação. Nada mais correcto. Nada poderia ser mais lógico. Quando é registado um novo medicamento é muito importante que se garanta que vai tratar a doença para o qual foi criado e que os benefícios que serão atingidos superam largamente qualquer efeito menos positivo no doente. É por este motivo que um medicamento leva, em média, 15 anos a ser desenvolvido e testado antes de ser utilizado.Reivindicar para um produto propriedades terapêuticas implica uma enorme responsabilidade e obriga à existência de regras que não permitem que estes medicamentos sejam publicitados para a população evitando assim o aumento da sua utilização abusiva. Existe inclusive uma comissão para avaliação da publicidade aos medicamentos e regulamentação muito estrita sobre esta matéria.
As autoridades na área do medicamento assumem, conjuntamente com a Indústria Farmacêutica e com os profissionais de saúde essa responsabilidade perante o cidadão através de sistemas de vigilância que identificam qualquer problema de qualidade, eficácia ou segurança do medicamento.
Curiosamente, este rigor cada vez maior parece só se aplicar ao sector dos medicamentos contrastando com o facilitismo que se verifica para outros produtos.
Se nos detivermos em frente à televisão e fizermos leituras diárias de outros meios de informação veremos, com frequência, o anúncio a produtos alimentares, que reivindicam propriedades curativas e afirmam peremptoriamente que tratam e evitam problemas de saúde. Assumindo que alguns desses produtos terão alguma evidência de benefícios para o indivíduo onde está a evidência de que esse efeito é semelhante ao que se obtêm com os medicamentos, quer a nível terapêutico ou (como as vacinas) profilático?
Que estudos clínicos foram feitos para comprovar que estes efeitos, por si só, conduzem ao controlo da patologia ou sintoma para o qual são “recomendados” e que é habitualmente divulgado em qualquer meio de comunicação social sem qualquer tipo de fiscalização ou regulamentação? Qual a intervenção por parte das autoridades na regulação da entrada destes produtos no mercado?
Não considerando sequer a questão ética, não haveria qualquer problema se, as pessoas não se deixassem influenciar por esta publicidade e continuassem a tomar os medicamentos que, efectivamente, necessitam para controlar o seu colesterol elevado, a sua hipertensão e que lhes foram receitados pelo médico que conta com esse efeito para controlar o problema de saúde do seu doente.
O que é facto é que todos conhecemos casos de pessoas que deixam de tomar os medicamentos convencidos de que já não precisam deles, porque tomam todas as manhãs o seu iogurte para diminuir o colesterol e a pressão arterial.
O rigor não é para todos.
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José Almeida Bastos, Director-geral da Merck Sharp & Dohme
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