Martin Luther King disse :’I have a dream’. Eu também tenho um sonho, e acho que Portugal devia ter esse sonho, o sonho de um país “verde e azul”.
Esta semana, o presidente da República fez o seu “Roteiro para a Ciência”, visitando novas indústrias e empresas nas áreas das energias renováveis, do biodiesel, e outras. Ao fazê-lo, Cavaco Silva mostra que não só está em “concertação estratégica” com José Sócrates e o seu “choque tecnológico”, apoiando essa aposta do Governo, mas também que compreende com lucidez que este pode ser o único caminho para o futuro de Portugal, um caminho que na prática é a procura de um novo modelo de crescimento económico do país.Os modelos do passado parecem esgotados. Apesar de as tradicionais exportações ainda serem um motor importante do crescimento, Portugal já não tem tanta vantagem como teve. Em segundo lugar, o consumo privado não estica muito mais, seja nas famílias seja nas empresas, e com as taxas de juro europeias a subir, o arrefecimento é progressivo e esperado. Por outro lado, o Estado está limitado. É possível fazer mais obras públicas, mas há cada vez mais restrições, devido aos ‘deficits’ e às regras duras do euro. E aumentar o crescimento a partir do emprego no Estado é uma impossibilidade. Em Portugal, há já um enorme consenso que o número de funcionários públicos é exagerado e deve ser diminuído.
Assim sendo, os governos estão limitados na sua área de actuação. No fundo, pouco mais podem fazer do que subir ou descer impostos. Se os ‘deficits’ crescem, os governos têm imediatamente de subir impostos, para cumprir as regras de Bruxelas. Foi isso que fizeram primeiro Barroso e depois Sócratres. Essa subida de impostos, acompanhada por tentativas de controle da despesa mais ou menos bem conseguidos mas sempre difíceis, criam um movimento recessivo. As economias demoram assim muito mais tempo a sair da anemia, e essa saída é sempre complexa. Por cá, é sabido, há muitas áreas económicas com problemas, há mais desemprego, há demasiado endividamento, e há muito pouco investimento.
O que resta então aos governos, além das lutas desgastantes para dominar o célebre “monstro” do ‘deficit’? Novas políticas industriais, é a resposta. Só com uma nova aposta em novas indústrias, o Estado pode ajudar a economia a resolver o seu problema económico. Ou seja, é preciso a força da lei e dos programas governamentais de apoio para dirigir a economia do país em direcção a um novo modelo de crescimento económico.
Sócrates e Cavaco estão no caminho certo, e é importante que tanto o primeiro-ministro como o presidente se comprometam com esse caminho. A aposta nas energias renováveis (sol, mar, vento) é uma nova política industrial, que pode gerar valor acrescentado e emprego, obrigando o país a mudar. O país “verde” é uma boa visão de futuro, um bom modelo de crescimento económico, e não apenas uma boa utopia romântica. Mas mais tem de ser feito. Porque não usar a força das leis do Estado para nos vermos livres da dependência petrolífera? Porque não apostar no etanol do Brasil, no biodiesel nacional, nos carros a hidrogénio, nos modelos híbridos? A lei, a força do Estado, pode criar mercados e indústrias novas, com “participação industrial” portuguesa, desenvolvendo o país.
Mas, além do verde, a cor do azul também pode aparecer. A aposta no mar não é romântica, mas sim uma aposta num potencial industrial que está por explorar, seja na biologia seja no turismo. E nós podemos fazê-lo, desde que sejamos inteligentes e empenhados. Há dezenas de actividades relacionadas com o mar que podem e devem ser desenvolvidas, e que são de alta tecnologia e portanto possíveis de gerar muito valor acrescentado ao país.
Martin Luther King disse um dia a famosa frase ‘I have a dream’. Eu também tenho um sonho, e acho que Portugal devia ter esse sonho, o sonho de um país “verde e azul”, que implica um novo modelo de crescimento económico, que já não nos faça reféns do petróleo, do betão permanente da construção civil ou das regras do euro, e que permita gerar valor acrescentado novo que nos permita viver melhor. É bom que se dêem passos nesse caminho, como Cavaco fez.
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Domingos Amaral, Director da revista “Maxmen”
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