Não deixo de pensar [...] na flagrante desigualdade das condições de vida das pessoas e do desenvolvimento das sociedades.
É já incontornável que, por esta altura do ano, se leiam e ouçam ‘soundbytes’ (tipo “Bill Gates, o maior magnata do mundo” ou “Belmiro, o português mais rico”) associados à divulgação pela “Forbes” de dados sobre o estado e evolução das maiores fortunas do mundo. Entendo os porquês de quem encara a matéria como uma minudência equiparável “em bom” à coscuvilhice própria das revistas côr-de-rosa mas, apesar das limitações da informação e critérios subjacentes às tabelas em causa, não deixo de pensar que estamos perante uma fonte útil de conhecimento sobre uma dimensão marcante do mundo que nos rodeia: a flagrante desigualdade das condições de vida das pessoas e de desenvolvimento das sociedades.A lista de 2007 aponta algumas grandes verdades, nomeadamente: (1) inclusão de 178 ‘newcomers’, conduzindo à indicação de 946 personalidades como “bilionários” (fortunas superiores a ‘one billion’, i.e., a mil milhões de dólares); (11) constatação de que essas menos de mil pessoas detêm uma riqueza total de 3,5 biliões, valor que é cerca do dobro do PIB chinês e supera em mais de 25% o PIB da maior economia europeia; (111) observação de um enriquecimento em mais de dois terços dos bilionários, no contexto de um incremento global (35%) excedendo sete vezes o do crescimento económico mundial; (1v) evidência de uma enorme supremacia dos EUA (44% dos citados), sem prejuízo de o continente asiático sobressair em dinâmica de novos entrantes e peso no conjunto (176 presenças contra 150 oriundas da UE-27) e de uma reveladoramente surpreendente hierarquia por países – os EUA (415 registos) são seguidos pela Alemanha (55), Rússia (53), China (41, incluindo 21 de Hong-Kong), Índia (36), Reino Unido (29); Turquia (25), Japão (24), Canadá (23), Brasil e Espanha (20).
Prescindo de prosseguir aprofundando outros tópicos – discrepância entre certos totais em número ou em valor, confronto entre cidadanias e locais de residência, rejuvenescimento das idades médias e suas localizações e actividades – em favor de uma menção ao filão complementar de outros trabalhos recentes: os de Thomas Piketty e Emmanuel Saez no quadro do “National Bureau of Economic Research” e os de investigadores do “World Institute for Development Economics” (Universidade das Nações Unidas).
Os primeiros, tendo construído uma inédita base de dados internacionais baseada em estatísticas de impostos e cobrindo boa parte do Século XX, abrem direcções desafiantes: da queda drástica das quotas dos rendimentos de topo durante a primeira metade do século e na maioria dos países à escassa recuperação dos maiores detentores de capital nos anos posteriores à segunda guerra (progressividade fiscal), da forte recuperação dessas quotas nos últimos 30 anos e nos países de expressão inglesa ao intrigante não acompanhamento dessa tendência no Japão e Europa Continental e, sobretudo, quanto a uma explicação daquela recuperação largamente assente em aumentos substanciais dos salários de topo (executivos, em especial), fazendo-a assim convergir com as conhecidas temáticas dos ‘managers against shareholders’ ou dos ‘working rich’.
Os segundos fornecem-nos argumentos decisivos para uma avaliação, sob diversos ângulos, da distribuição da riqueza mundial das famílias: concentração de 90% na América do Norte, Europa e países de rendimento elevado da Ásia-Pacífico, maior desigualdade entre países em termos de partilha da riqueza do que do rendimento, concentração interna aos países (10% mais ricos com 40% na China, 70% nos EUA e percentagens ainda maiores em outros casos), concentração em franjas mínimas da população mundial (1%, 2%, 5% e 10% desta detendo, respectivamente, 40%, 51%, 71% e 85% dos activos industriais, financeiros e imobiliários do planeta, tal tendo por reverso que 50% apenas detêm um valor próximo de 1% desses activos).
Assim dou por comprovada a pertinência de ir espreitando a “Forbes”, simultaneamente tendo validado – se preciso fôra! – a ideia sugerida em título e que a canção dos ABBA popularizou: ‘The winner takes it all / The loser standing small / Beside the victory / That’s her destiny’.
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Fernando Freire de Sousa, Professor universitário e gestor
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