Os decisores políticos sairão sempre beneficiados com uma obra desta dimensão [...] não é seguro que sobre ela venham a prestar contas.
Quando um projecto é faraónico, o cidadão desconfia. Estima-se que a Ota custará – sem contar com as inevitáveis derrapagens – 3,1 mil milhões de euros. Mário Lino, na boa tradição do intervencionismo estatista, afirma que “as obras públicas são essenciais à economia” e que a Ota trará um “novo fôlego ao sector da construção”. Diz ainda tratar-se de um “compromisso pessoal” – uma declaração infeliz e reveladora.A possibilidade de ver surgir mais um “elefante branco” obriga-nos a lembrar duas coisas. Primeiro, os decisores políticos sairão sempre beneficiados com uma obra desta dimensão, sendo que não é seguro que sobre ela venham a prestar contas. Os benefícios têm lugar no curto prazo, a avaliação global só é possível a médio prazo. Não é por acaso que ‘accountability’ é dificil de aportuguesar (e recorde-se como a governação, em Portugal, parece ser cada vez mais um mero trampolim para voos mais desejados). Segundo, existe uma incerteza grande quanto aos benefícios do projecto. Quer a procura da gratificação imediata, quer o excesso de optimismo, incentivam o decisor político a ser favorável a projectos que deveriam ser chumbados.
Não bastavam estas perversões, acresce ainda a pressão dos engenheiros deslumbrados com a ideia de tão “grande obra”. São precisas 235 mil estacas? “Isso não é nenhum papão para a engenharia portuguesa”, advertem. Como o major Valentão do Contra-Informação, eles não têm medo de nada, estacas incluídas: só precisam de saber “quantas são”. Grave é que, no meio de tanta discussão técnica, não se dê a devida importância ao custo da obra – pago pelas gerações actuais e futuras.
Numa estratégia inteligente, o governo tem feito por transmitir a ideia de a decisão ser definitiva, procurando desanimar os opositores, enquanto pisca o olho aos beneficiários do projecto, desde logo a banca, como notavelmente explica João Caetano Dias (http://www.causaliberal.net/documentosJCD/falaciasota.htm). Mas em política nada é irreversível.
A alternativa mais sensata – a que respeitaria os contribuintes – seria apostar num aeroporto ‘low cost’, complementar da Portela, que satisfaria e geraria tráfego acrescido, proveniente de um novo tipo de turismo. Uma opção responsável, inevitavelmente incapaz de satisfazer o apetite estatista pelas grandes obras.
tiago.mendes@economics.oxford.ac.uk
____
Tiago Mendes, Economista e tutor no Christ Church College, Oxford
Comentários
Ainda não existem comentários. Seja o primeiro a comentar!
Publicidade
Collapse
Última Hora
- 20:25
PS afasta ataques a Sócrates após arquivamento das escutas - 19:25
Ministério investiga caso dos documentos judiciais deixados no lixo - 18:55
Explosão em mina na China faz 92 mortos - 18:31
Banderas quer dedicar-se ao turismo - 18:18
Morreu o primeiro cosmonauta civil soviético - 17:15
Reforma da saúde passa o primeiro teste no Senado - 16:41
Dalai Lama nega que Obama seja "brando" com a China
Collapse






