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Editorial

É a crise

07/01/08 15:00 | Bruno Proença 



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Ainda não passou o primeiro mês do ano e parece cada vez mais certo que 2008 vai ser pior do que se esperava.

Não há confiança de ano novo que resista a uma crise financeira mundial, aliada aos preços recorde do petróleo, tudo num país de endividados. Ano novo, vida velha.

Ontem, em dia de Reis, o ministro das Finanças decidiu entregar uns presentes: o défice orçamental de 2007 vai ficar abaixo dos 3% do PIB e a economia cresceu acima dos esperados 1,8%. As palavras de Teixeira dos Santos são importantes. Mostram que foram feitos progressos que ajudam a economia nacional a enfrentar as dificuldades que aí vêm. Mas não chegam. O monstro da despesa pública está longe de ser derrotado. E o nível de crescimento não impede que os portugueses fiquem mais pobres quando comparados com a média europeia. As pessoas neste momento sabem-no. As palavras do ministro alegram, mas não convencem.

Os dados do Instituto Nacional de Estatística mostram que as famílias portuguesas estão a ficar deprimidas. Quando olham para a sua situação financeira e capacidade de poupança, o pessimismo só tem paralelo com o da última recessão de 2003. Os indicadores de conjuntura são importantes porque ajudam a antecipar o comportamento das pessoas. Só por si não significam que a economia portuguesa vá cair de repente em recessão, mas uma coisa é certa: as famílias portuguesas estão à beira de um ataque de nervos. Assim, não há quem queira ir às compras.

Perante isto, o consumo privado não deverá ter a força suficiente para ser o motor de que a economia precisa. O que aliás era previsível porque é o mais afectado pelas duas crises internacionais. A financeira tornou o crédito mais caro com a subida dos ‘spreads’. A do petróleo puxa pela inflação – já está em 3,1%, muito acima da referência dos 2% –, o que deverá obrigar o Banco Central Europeu a subir os juros. Numa economia altamente endividada como a portuguesa, isto são motivos suficientes para dar vontade de cortar os pulsos. Mesmo as empresas que querem investir vão pensar duas vezes. Restam as exportações que estão dependentes da economia internacional, que está no meio de um tornado. Ainda não recuperou da crise financeira e já tem de lidar com os preços loucos do petróleo. Com este cenário, a economia nacional vai este ano ter de suportar mais um forte abanão vindo do estrangeiro.

Os riscos são imensos e o pessimismo é mais do que justificado. É por isso que as palavras de cautela de Cavaco Silva no primeiro dia do ano fazem mais sentido à maioria das pessoas do que as de alegria de José Sócrates no Natal. Não é por negar a crise que ela desaparece. É sempre melhor enfrentá-la.

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